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Uma Nova Ética Ambiental
Luiz Eduardo Cheida

21/10/2004
Artigo: Luiz Eduardo Cheida
Uma nova ética ambiental

A nenhuma outra espécie é dada a opção de destruir ou preservar. Apenas nós, humanos, por conta de nossos interesses, podemos explorar os recursos de uma floresta, colocando-a abaixo, ou obtê-los mantendo-a em pé. Na primeira opção, as conseqüências serão danosas e de longa duração. Na segunda, não há danos e os benefícios é que terão longa duração.

No Paraná, nos últimos cem anos, cerca de 80% das florestas foram sacrificadas, cedendo espaço à economia do estado. Sem grande parte da cobertura original, a velocidade dos ventos foi alterada, assim como a umidade do ar, a luminosidade, a temperatura. Enfim, modificamos o microclima de milhares de pequenas localidades.

Do microclima estável depende a vida de milhares de espécies que compõem a teia alimentar de uma localidade. Sem a cobertura vegetal, o solo se aqueceu sacrificando a vida de bactérias, fungos e outros seres que auxiliam a vida. Sem a cobertura florestal, também o vento e a chuva levaram a terra fértil para dentro dos rios, assoreando-os. Dados oficiais dão conta que, para cada quilo de grão produzido, mais de 10 quilos de solo perdem-se através da erosão causada pelo vento e pela chuva.

Hoje, além de assoreados e também desprotegidos de suas matas ciliares, a grande maioria dos rios do Paraná encontram-se com um maior ou menor grau de poluição. O resultado é o desaparecimento de peixes, moluscos, artrópodes, algas e outros seres. Como estes seres são a base alimentar de outros mais, seu desaparecimento provoca a extinção de inúmeras outras espécies.

Não sabemos quantas espécies existem no planeta. Nem quantas deixam de existir, ao cabo de cada ano. Muitas delas se extinguirão antes mesmo que sejam conhecidas. Em outras palavras, não sabemos nada. O que se sabe é que cada espécie é única. Cada uma é uma verdadeira obra prima que a natureza esculpiu com a paciência de quem sabe o que faz.

Quanto maior a diversidade de espécies de um local, mais estável e produtivo ele é. Assim, até por uma lógica capitalista, é mais rentável proteger do que degradar. O capitalismo, entretanto, também tem a lógica predatória do lucro imediato. Através dele, retira-se mais da natureza do que ela pode repor. A natureza, contudo, é finita e de recursos esgotáveis. Com o tempo, subtrair mais do que adicionar, até por uma questão aritmética, fará com que ela acabe.

Nós humanos nos consideramos acima ou à parte da natureza. Aprendemos que ela existe para nos servir. Que, justamente por isso, necessita ser controlada, transformada, vencida. Porém, ao nos considerar donos absolutos da natureza, confundimos o valor ético que tem a vida humana sobre as demais espécies. Esta confusão  é mais que oportuna pois, assim, podemos explorá-las.

Contudo, ao tentarmos subjugar a natureza, entramos em litígio com ela. A degradação é mera conseqüência. Assim, do ponto de vista ambiental, a conduta humana é imoral. Nossa espécie utiliza-se dos recursos naturais muito além de nossas verdadeiras necessidades. E, ao fazê-lo, coloca a sua vida e a vida dos demais seres vivos em risco.

A história da biologia nos mostra que todas as espécies que conseguiram estabilizar-se na Terra o fizeram seguindo estratégias de cooperação e solidariedade para com outras espécies. As que usaram meios contrários, não sobreviveram.

Uma nova ética na relação homem-natureza nunca foi tão necessária. Não fossem as inúmeras razões aqui faladas, apenas por uma questão de sobrevivência. Nossa sobrevivência.



Luiz Eduardo Cheida - Secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná. E-mail: sema@pr.gov.br


As opiniões expressas no texto são de inteira responsabilidade do autor, não representando o pensamento do Portal ambientebrasil.

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